quinta-feira, outubro 11, 2012

DÁ PARA FAZER SÓ MUSICA?

Juquinha, eu tento gostar de alguns músicos brasileiros. Mas eles insistem em lançar disco com bula de remédio para explicar as referências. São 70 minutos de música e 30 páginas de manual de instrução.

Otto é um exemplo gritante. Ele anunciou o lançamento do novo disco, “Moon 111”. E já explicou que a obra foi inspirada por "Fahrenheit 451", de François Truffaut. Sim, cinema francês sempre pega bem. E também combina com vinhos da Alsácia e lagosta grelhada. Chique.

A lista de referências do disco é um resumo das citações cult que um universitário faz para comer uma mina do grêmio: Fela Kuti, Pink Floyd, pitadas de candomblé e até Odair José. Você sabe, reverenciar artistas bregas dá um tom “roots” e garante o sorriso da turma de sociologia. 

Ouvi algumas faixas. Olha, é até legal. A voz continua uma merda e ele segue fazendo aquelas rimas panacas proto-inteligentes (eu ouvi, juro, “Dalai Lama” rimando com “grama”). Mas o som é moderninho, bonitinho. Vai bem como fundo de vernissage ou lançamento de livro de poesia. Servir Chardonnay chileno na temperatura certa, por favor.

A obra deveria ter sido lançada em 11/11/2011 (ah, sacou o porquê do nome do disco?). Um ano para decidir se é melhor homenagear Sidney Magal ou Patativa do Assaré. Tem que ficar atento ao que está mais na moda nos barzinhos da Barra da Tijuca. Aposto uma grana que no próximo disco ele vai citar Glauber Rocha. Gláuber é batata.

Por causa dessa demora, a imprensa faz questão de falar no “tão aguardado novo disco de Otto”. Quem estava aguardando o disco? Você, Juquinha? Ou aquele seu amigo que estuda filosofia na PUC e se diz fã de comida etrusca?

Gosto dos comentários dos críticos: “é um disco solar”. No dicionário do crítico pedante, “solar” é sinônimo de “otimista”. Isso deve ser bom. E tem ainda as próprias palavras de Otto: “o disco tem como fundamento abrir as portas da percepção, do novo, uma experiência cabalística, meu mais profético disco”. Não entendi porra nenhuma, mas que é bacana, é.

Ah, sim, Otto tem patrocínio da Natura, porque artista brasileiro tem sempre que entrar no jogo com a grana já garantida. Não dá para correr o risco de ficar sem aqueles livros sobre arte rupestre espanhola que enfeitam a sala de estar. Que, por sinal, combinam super bem com sushi.

Otto: eu até quero curtir tua música. Mas se na próxima vez você misturar Tarkovsky com arte pré-colombiana eu desisto de vez, beleza?

Marcadores:

18 Comments:

Blogger Claudio Tavares said...

E esse cara comia a Alessandra Negrini. Que ódio!!

quinta-feira, outubro 11, 2012  
Anonymous Anônimo said...

O cara ganha grana da natura e faz essas merda de música? Vai te catar, Otto!

quinta-feira, outubro 11, 2012  
Anonymous Rafael Boça said...

Carrilho, pergunto: O que você acha de uma bandinha nova chamada
Nouvelle Vague, se não viu veja:

http://www.youtube.com/watch?v=l4efME9Vnlc

Aposto 110 centavos que o Ian Curtis aprovaria.
Super cult "fazem versões de grandes clássicos punk e pós-punk que fariam inveja ao sid vicious" conforme eu li em uma dessas críticas solares por aí. Abraço Carrilho, gosto muito das suas boçalidades.

quinta-feira, outubro 11, 2012  
Blogger Walter Carrilho said...

Rafael: eu já tinha ouvido essas versões do Nouvelle Vague!!! Como se sabe, TUDO pode virar bossa nova! Cai bem em restaurante francês,a cho. É um lance "solar" ... abs

quinta-feira, outubro 11, 2012  
Anonymous Anônimo said...

Tinham que degustar o orifício solar circular corrugado do crítico.
Stanislaw Callmann.

sexta-feira, outubro 12, 2012  
Anonymous Silvia said...

"Solar"!?!? Isso significa exatamente O QUE?
- Devoto de Apolo (com direito a profecias do Oraculo de Delfos)?
- Seguidor de Akenathon, o farao mais impopular do Egito?
- Financiado com dinheiro publico do Congresso (nao tem um lance de o sol nascer no meio dos dois predios do Congresso no dia 21 de abri)?
- Ou...suprema ironia..UM DISCO EM BRANCO??? Afinal, a definicao de "disco solar" e um circulo em Branco ou com uma cruz - algo como um comprimido pra quebrar em quatro.
Me explica, Tio.

sexta-feira, outubro 12, 2012  
Blogger Jetter Castro said...

Grande Walter
Tomei a liberdade de postar o link de sua matéria na página da Rolling Stones no Facebook que tece comentários elogiosos à nova pérola musical da MPB.
Qualquer atentado, eu sou o culpado,ok?rs
Abs

sábado, outubro 13, 2012  
Anonymous Anônimo said...

Malditos hipsters! Querem entender tudo e não sabem de porra nenhuma! Complicando o que era pra ser simplificado... Solar é sua bunda!

domingo, outubro 14, 2012  
Blogger Walter Carrilho said...

Anônimo: vc gosta de otto e nós é que somos hipsters? E nós é que estamos "complicado"? Acho que vc está pouco solar, meu caro.

segunda-feira, outubro 15, 2012  
Blogger Raphael said...

Não gosto de Otto. Não gosto de sertanejo. Gosto menos ainda de preconceito musical. Gostaria que uma vez, ao menos uma vez, antes de criticar, nós, seres intelectualmente musicais (cada um com sua própria razão), pensássemos "Bom, isto não agrada aos meus ouvidos, então não deve ter sido feito pra mim", e então colocasse alguma música que te agrada pra rolar. Mas não, a gente tem que criticar que Tchetchere como falta de conteúdo e reverenciar Obladi oblada ou tutti-frutti do Little Richard como musicalidade ou atitude. Tem que franzir a testa quando se rima Dalai Lama com grama, pois a diferença conceitual entre as palavras importa mais do que o contexto, deve ser... E os estereótipos dos estilos musicais e seus fãs? E os coitados dos artistas que não podem ter reconhecimento que viram "Não gosto de Otto. Não gosto de sertanejo. Gosto menos ainda de preconceito musical. Gostaria que uma vez, ao menos uma vez, antes de criticar, nós, seres intelectualmente musicais (cada um com sua própria razão), pensássemos "Bom, isto não agrada aos meus ouvidos, então não deve ter sido feito pra mim", e então colocasse alguma música que te agrada pra rolar. Mas não, a gente tem que criticar que Tchetchere como falta de conteúdo e reverenciar Obladi oblada ou tutti-frutti do Little Richard como musicalidade ou atitude. Tem que franzir a testa quando se rima Dalai Lama com grama, pois a diferença conceitual entre as palavras importa mais do que o contexto, deve ser... E os estereótipos dos estilos musicais e seus fãs? E as "modinhas"? Coitada da música.

segunda-feira, outubro 15, 2012  
Blogger Walter Carrilho said...

Raphael: Se Otto não se achasse um intelectual genial, não haveria essa crítica. O preconceito não é com a música. É com a pretensão.

segunda-feira, outubro 15, 2012  
Blogger Luciana said...

Otto é uma merda. Fato!

segunda-feira, outubro 15, 2012  
Anonymous Silvia said...

Engracado, nunca ouvi esse cantor, mas nao e isso que esta me intrigando. Nao e o cantor, e a critica.
O QUE O CRITICO QUIS DIZER COM "DISCO SOLAR"? segundo a Wikipedia, a definicao e de que o disco solar representa um Deus, veja aqui:

Atonismo, também conhecido como a "heresia de Amarna", é a primeira religião monoteísta (ou henoteísta), conhecido na história, promovendo o culto do disco solar Aton. Por motivos ainda pouco compreensíveis, mas provavelmente por causa do conservadorismo e da hostilidade do clero tebano, faraó Amenhotep IV, decidiu abandonar o culto dinástico do deus Amon, "o deus oculto".

Ou de acordo com o Oxford Dictionary:

sun disc
Definition of sun disc
noun
(especially in ancient Egypt) a winged disc representing a sun god.

Ou ainda, seria a bandeira do Japao? (Wikipedia de novo):

A bandeira do Japão tem um formato retangular branco com um grande disco vermelho (representando o sol) no centro, e é oficialmente denominada Nisshōki (日章旗 "bandeira do sol"?) em japonês, embora seja mais comumente conhecida como Hinomaru (日の丸 "disco solar"?).[1]

Entao o critico quer dizer que o cantor e um deus? Ou um deus japones?

Desculpa a chatice, Tio, mas uma coisa que me incomoda E MUITO e alguem escrever "pseudometaforas". Geralmente elas estao erradas, nao fazem sentido e violentam a definicao original, e nao podem ser consideradas nem metaforas nem nenhuma outra figura de linguagem, porque NAO FAZEM LA MUITO SENTIDO!
Uma coisa e comparar a pele da namorada com um pessego, outra e esse tal "Disco solar". Isso e tentar fazer gracinha metafisica-esoterica, mas como voce pode ver pela definicao, nao faz sentido, a menos que o critico esteja mesmo endeusando o cantor.
Ou e mais uma giriazinha "neologismica" (tipo "Mano", "Maluco", mas com sabor Vila Madalena?

Como disse, nem conheco o cantor, mas ainda to querendo saber o sentido do "disco solar".

Quem foi o critico que escreveu isso?

segunda-feira, outubro 15, 2012  
Blogger Walter Carrilho said...

Silvia: eu juro que vi umas 3 (três!!!) críticas do disco do Otto com esse termo. Não lembro dos nomes. Mas não importa: um está colando do outro. E se vc não conhece o Otto...olha, não tá perdendo muita coisa!

segunda-feira, outubro 15, 2012  
Blogger Walmor Carvalho said...

http://emais.estadao.com.br/noticias/musica,joao-gilberto-e-o-maior-cantor-de-todos-diz-tony-bennett,3521,0.htm

Walter...leia isso. agora o Joao Gilberto não vai mais dar sossego.

segunda-feira, outubro 15, 2012  
Blogger redhotchilipeppers said...

ELE so quis dizer q as musicas em geral da mpb são so pra esse povo q quer se achar "cult", pois n são muitas legais, ninguem gosta, esse tipo de música é de gente tentando parecer inteligente, como alunos de sociologia, que tem ideias milaborantes que na verdade n fazem sentido, como esse tipo de música

quarta-feira, outubro 17, 2012  
Anonymous João Matheus said...

Quanto à explicação do Otto, eu acho que entendi.

Quando ele diz "abrir as portas da percepção", creio que ele se refira ao fato de que você vai perceber que fez merda comprando o cd assim que começar a ouvir.
E quando ele diz que o cd é "profético", acho que ele se refere ao fim do mundo maia em 2012, já que alguém ter aguardado o lançamento do cd do Otto certamente é um sinal do fim dos tempos.

quarta-feira, outubro 17, 2012  
Anonymous Clayton Moreira said...

Eu acho impressionante o "talento" que esse Otto tem pra estragar as músicas que todo mundo gosta. Inventou de regravar o lindo samba-choro "Naquela mesa", que Sérgio Bittencourt dedicou a Jacob do Bandolim, seu pai...

Que grande merda ficou, meu Deus!

Talvez a melhor obra de Otto foi a cantada que ele passou na Alessandra Negrini. Como é que um cara feio, com a cara de quem não toma banho há semanas, me fatura aquela gostosa?!

quinta-feira, maio 02, 2013  

Postar um comentário

Link permanente para este post:

Criar um link

<< Home