UM BRASILEIRO EM BUENOS AIRES – PARTE 1
Sim, leitores, demorei para escrever. Estava digerindo as toneladas de ojo de bife que comi na Argentina. E, no mais, eu tenho uma vida além do blog, caceta!Essa rixa velha entre Brasil e Argentina é igual a duas faveladas que brigam para ver quem tem a caixa de OMO mais nova ao lado do tanque. Somos todos moradores da várzea. A Argentina é muito parecida com o Brasil: o mesmo péssimo gosto para governantes, ônibus velhos e camelôs. A diferença é que eles têm vinhos melhores. E nós temos o queijo catupiry. E dai? Comida não paga a conta do FMI.
Buenos Aires é bem bacana, tem charme. E os argentinos tratam bem os turistas brasileiros. Mas a verdade é que eles até têm razão para nos odiar. Estamos invadindo o país dos caras. E fazendo presepada, como é o nosso costume. Eles estranham, querem ter aquela impressão de que Buenos Aires é Paris. Mas a gente vai lá e carnavaliza tudo.
Fui com amigos brasileiros a um restaurante em Boca. Os argentinos comiam enquanto assistiam a um jogo do River. E a gente tocando o bordel, gritando, cantando boleros, o cacete. Na saída, ouvi uma senhora comentar: "São como Gremlins, se reproduzem." Quem pode culpá-la? O brasileiro educado que não faz barulho é lenda, com exceção daqueles internados em UTI.
Mas não para por ai. Fui a uma loja de departamentos e o sistema de som tocava Guilherme Arantes: “Cheia de charme/ um desejo enorme...” Isso já seria assustador no Brasil, imagine na Argentina. Em Caminito (uma mistura da Vila Madalena paulista com a Lapa carioca, mas sem o vendedor de poesia esmolando), uma barraca insistia em tocar Adriana Calcanhoto. E Buenos Aires estava cheia de cartazes anunciando um show de Caetano Veloso. Imagino a retaliação dos argentinos: vão mandar o Fito Paez fazer turnê no Brasil, só de raiva.
Tentei me adaptar aos caras. Troquei o boné pelo chapéu. E tentei dançar tango com uma dançarina de rua – dançarina de tango em Buenos Aires é como baiana do acarajé em Salvador: dá em árvore. O resultado foi uma hérnia de disco. Esse é o grande segredo de países latinos: inventar danças que torçam a espinha de pessoas sem suingue. Ou seja, alemães, americanos e paulistas com falta de ritmo e problemas de coordenação nas pernas. O tango é a dancinha da garrafa versão portenha: as músicas têm letras e melodias bem melhores, mas quem quiser curtir também precisa apresentar um atestado do ortopedista antes.Aliás, esse lance de cultuar o tango pode dar uma impressão errada. O turista desavisado pode achar que todo argentino ouve Carlos Gardel, o que é mentira. Eles ouvem as mesmas merdas enlatadas que nós, brasileiros: rock nacional (ruim) e Beyoncé. O tango é como a bossa nova: não produz nada de novo há décadas, mas é bonito de mostrar para turista. Eles devem ter lá seus cantores que lançam compilações picaretas para “atualizar o tango”, tipo “Ney Matogrosso canta samba”, saca? Mas esses artistas não enganam ninguém, só os críticos – crítico cultural besta como os da Revista Bravo tem em todo lugar, você sabe.
Em breve (mesmo), mais aventuras portenhas. E um bife de chorizo, porque ninguém é de ferro.
Marcadores: Um repórter na roubada



14 Comments:
Já tinha achado que o valter tinha vira Carrijo....
Dei boas risadas lendo o post. Gosto de Bs. As. e uma coisa aprendi: os grandes bairros são Recoleta e Palermo (Chico, Soho, Viejo e o Escambau) e existem sim novidades na música portenha. O tango eletrônico: Bajofondo, Gotan Project, San Telmo Lounge. Todos são muito bons. E Bs As tem ar e atmosfera que só se encontra em Bs. As.
Titio Walter, cuidado: observei no trecho "Nós temos Catupiry / E daí? / Comida não paga o FMI" um alto grau de contaminação por Caetanismo. Melhor se afastar um pouco das resenhas de MPB, oks? Bom te ver de volta, um abraço!
Patrícia: caraca, eu fiz poesia e nem vi!!! Viram como é fácil ser poeta hoje em dia?
Este comentário foi removido pelo autor.
A mesma turnê do Caetano, passou por aqui, em Montevidéu. Veio no lote da que trouxe o Guns.
De vez em quando aparece um Carlinhos Brown, coisa fina.
Aqui só toca dois tipos de músicas: reggaeton (parece rap) e cúmbia (parece uma panela de pressão). Mas nos ônibus, você fica feliz quando toca Ritchie nos intervalos do axé e Terra Samba!
Abrazos, desde Montevideo
Esqueceram de avisar o amigo do comentário aí de cima que esse tango eletrônico nada mais é do que a "represália" argentina para a bossa eletrônica. O próximo passo é o filho do Menem ou do Cavallo lançar um disco chamado "Tango Furioso".
Em tempo: você teve sorte, porque quando fui ao Caminito encontrei um poeta mala. Mas acho que era brasileiro...
Querido blogger. Sugiro que vc se informe um pouco mais antes de se aventurar por alguma viagem, seja ela qual for. Você, certamente, não tem a menor idéia do que está dizendo a respeito da cultura porteña.
Ninguém precisar ser escolado em Buenos Aires para perceber que a comparação do Caminito com os bairros que cita é descabida e infame. Existe sim, uma produção contemporânea de tango, mas pelo que podemos notar, sua informação alcança apenas até a banda Calipso.
Atenciosamente
HM
Horácio:Querido comentarista, minha informação sobre música parou em "do-re-mi", nem chegou ao Calipso (ainda bem).
abs
Ps: vc ainda não viu o quão infame eu posso ser em uma comparação...
Olha, fui a BsAs esse fim de ano e tudo o que ele disse eh verdade...mas cara, deixa eu te falar, quando o peso tava comparidade como dolar, eles tb invadiram o Brasil, em especial o Sul, e tocaram o terror aqui tb...quem for do Sul, poste aqui seu comentário. Já ouvi relatos tenebrosos de amigos meus a respeito do comportamento dos argentinos de Buenos Aires por aqui...eles são arrogantes e presunçosos...mas estão mansinhos mansinhos agora que a moeda eh praticamente a metade do REAL....fora isso, é maravilhoso, eu recomendo....
Nem São Paulo, nem Buenos Aires, o bom mesmo é Montevidéu. Aqui tem até academia para vagabundo:
http://goo.gl/UikC
Li, ri e fiquei menos curioso em gastar tempo viajando pra lá! obrigado!!!!
Quando eu fui para Montevideu, em 1994, pareceu-me ter entrado na máquina do tempo. Eu ficava esperando Teddy Boys e mocinhas de rabo-de-cavalo e meia soquete saindo dos prédios daquela baita avenida ... E os DKWs?? E os ônibus-jardineira? Mas eu adorei a cidade. E a carne é uma coisa séria ...!
Ei, na foto é a Glaria Pacifico!
Didi, Montevidéu mudou, as mulheres mudaram, os carros mudaram... e eu me mudei para cá.
Carros, tem mais novidade que no Brasil, e as coisas velhas são bem conservadas. Posso usar o mesmo comentário para as mulheres.
O ônibus não são tão velhos, nada ocmo as modernidades do Brasil, mas uma coisa eles têm: regularidade. Que adianta ter ônibus novos que nunca passam?
Também adoro tudo por aqui, principlamente o fato de quase não ver brasileiros!
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