sexta-feira, julho 01, 2011

POR QUE EU NÃO QUERO UM IPAD (AINDA)

Quando inventaram o cinema falado, um “gênio" alertou: “Vai ser um fracasso, as pessoas não vão mais poder dormir no cinema!” Penso nesse cara toda vez em que aparece alguém querendo ser visionário. Gente que adivinha o futuro costuma falar muita bobagem. Ok, dizem que o Ipad é o futuro. E dessa vez acredito que os visionários acertaram. O problema é que esse “futuro” me assusta. Por quê? Cito duas cenas reais:
Supermercado, oito da noite. Na minha frente na fila do caixa, um clone da Fernanda Young, com aquela indefectível cara de cu, fuça no seu Ipad enquanto espera com ar blasé a operadora passar as compras. O que ela estaria fazendo de tão importante no aparelinho? Trabalhando? Não: jogando Farmville. As cenouras não podiam esperar cinco minutos? Aparentemente, não.
No dia seguinte, vou a uma padaria. Ao meu lado, senta-se um sujeito que parecia ter tirado sua roupa do catálogo do “publicitário moderno”: camisa quadriculada, munhequeira, piercing e óculos escuros gigantes – corto meu pulso se ele não era “produtor” ou “designer”. O cara não desgrudava do maldito aparelho nem para pegar pão de queijo. Lia como se estivesse descobrindo o sentido da existência. Sartre? Tolstoi? Não, Revista Caras.

Excesso de conectividade não nos transforma, necessariamente, em pessoas mais produtivas ou inteligentes. Pode nos deixar mais boçais e fúteis. Shakespeare não tinha nem uma máquina Olivetti para escrever. Se usasse um computador talvez ele tivesse perdido o tempo jogando paciência. Não sei.

Não embarco fácil em novas manias. Aposto que na Alemanha da década de 30 muita gente viu aquela molecada loira com um braço levantado e suástica no peito e achou que fosse a nova onda. 10 anos depois eles descobriram que nem toda “nova onda" é uma boa. Talvez o sujeito que inventou a roda se arrependesse da invenção se descobrisse as barbaridades que fazemos no trânsito hoje.

Eu sei, o iPad é sen-sa-ci-o-nal, posso ler livros do mundo inteiro, etc. Eu vou acabar comprando um. Mas não sou do tipo que adere a qualquer novidade logo de cara. Sou geneticamente cético. Demorei um pouco para ter celular, twitter, etc. E, mesmo assim, já falei muito mal deles neste post e neste aqui. Prefiro que todos sigam bovinamente a nova mania. Se não resultar na Polônia invadida, ai beleza, eu embarco.

A vídeo do pandinha espirrando é fofo. Mas eu não preciso vê-lo na fila do banco, certo? 

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8 Comments:

Anonymous Silvia said...

Concordo totalmente. Eu tambem nao entro na onda do gadget, tambem demorei pra ter celular, etc. Porem quanto ao IPad, acabei comprando um, porque realmente e muito bom para ler livros, armazenar PDFs, musicas e substitui telefone na boa quando a gente usa o Skype. Pra armazenar referencias bibliograficas e a melhor coisa que eu ja vi.
Poderia ser melhor - por exemplo, rodar Flash - mas e um gadget bem util quando voce sabe usar. Sim, tio Walter, acredite, voce ainda vai ter um (ou um similar).
O que irrita com gadgets e exatamente o numero assombroso de idiotices que as pessoas fazem com
eles...um trequinho desses nao deveria substituir o
cerebro. Mas ai a culpa nao e do equipamento...ja viu aqueles caram que usam SMS nos carros e acabam dentro de rios porque o sat-nav estava desatualizado?

cerebro,

sábado, julho 02, 2011  
Anonymous rattus said...

Livro você deixa cair no chão e tá beleza. iPad se cai é prejuízo!

sábado, julho 02, 2011  
Anonymous Caipira do interiorrrr - SP said...

Sei lá pra que serve esse tal de ipad.

sábado, julho 02, 2011  
Anonymous eu said...

Fato: Brasileiro e pobre não consegue achar uma utilidade pra aparelhos tecnologicos que não seja orkur, msn, facebook e twitter e qual quer um que discorda do post tem o rabo preso em alguma das categorias citadas.

domingo, julho 03, 2011  
Anonymous Fábio said...

Sou quase tão cético quanto você. Levei quase dez anos para comprar um celular, quando todo mundo já tinha. E só entrei no Twitter porque descobri que os amigos não estavam mais combinando cervejadas por e-mail ou telefone.

E suas histórias reais me lembraram de uma que aconteceu comigo e minha mulher. Estávamos no avião e em dado momento ela pegou um livro em inglês que estava lendo ("1984", do Orwell. Ora pois).

O cara que estava na terceira poltrona e não resistiu: sacou seu Kindle e passou a ler em inglês, também. O conteúdo? Historias do ursinho Puff.

segunda-feira, julho 04, 2011  
Blogger Tuna Fusion said...

não sei se o iPad é tão sensacional assim. mas seu texto foi direto ao ponto! concordo em tudo!!! um abraço de mais um colega mal humorado e cético!!

segunda-feira, julho 04, 2011  
Blogger Luciana said...

Nada substitui um livro de verdade. Nem o mais poderoso aipédi!

#Prontofalei!

terça-feira, julho 05, 2011  
Blogger Carlos Andino said...

POis é, tb concordo com essa história de que tudo que é novidade parece que querem que tenhamos a força, mesmo que isso custe o dobro do salário de um professor (como se salário de professor fosse sinônimo de alguma coisa aqui nesse país que dá mais valor a uma copa do mundo ao invéz de jogar a grana federal no aperfeiçoamento dos professores). E tb cncordo que parece que os modernosos de plantão parece que querem redescobrir o mundo da pior maneira possível: com os livrinhos da infância do indivíduo.
Mas numa maneira geral um Ipad não substitui o prazer de ler a primeira edição de "Cândido - ou O Otimismo" com uma carta declaratória escrita a mão e assinada pelo próprio autor (sim, tive contato com esse livro quando trabalhei na biblioteca da Universidade de Brasília).

quinta-feira, julho 07, 2011  

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